Miguel Oliveira em entrevista exclusiva à Eleven Sports

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  • O piloto falou sobre o regresso da MotoGP, a sua carreira, os seus sonhos e ambições e a evolução da técnica e equipamentos.

Miguel Oliveira foi o convidado especial de mais um F1 Eleven, em direto, no Facebook da ELEVEN SPORTS e em simultâneo no Facebook da MEO Desporto. Durante cerca de 45 minutos, o piloto português de MotoGP, da equipa Red Bull KTM Tech3 e Embaixador da MEO, falou sobre a sua carreira no mundo do MotoGP bem como sobre as suas perspetivas para o futuro.

O piloto português Miguel Oliveira, de 25 anos, natural de Almada, é o expoente máximo do motociclismo português, sendo o primeiro a ter ganho uma corrida primeira no Mundial de Motociclismo de velocidade no Grande Prémio de Itália de Moto3, foi vice-campeão mundial de Moto2 e é o primeiro a subir à categoria de Moto GP.Foi nomeado Desportista do Ano, na categoria de Atleta Masculino, pela Confederação do Desporto de Portugal e Embaixador Global da Integridade e Transparência no Desporto pela Sport Integrity Global Alliance (SIGA).

Miguel Oliveira é piloto da equipa Red Bull KTM Tech3, e Embaixador da MEO, desde Janeiro do ano passado, altura em que a Altice Portugal reforçou a sua presença junto dos atletas do desporto motorizado.

O piloto português vai cumprir em 2020 a segunda temporada em MotoGP, a classe “rainha” do Mundial de velocidade de motociclismo, depois de ter sido 17.º classificado em 2019, com um total de 33 pontos.

Sobre o regresso ao trabalho depois deste tempo de pandemia, Miguel Oliveira referiu que: “Poder voltar à pista é sempre fantástico, porque temos a oportunidade de fazer aquilo que nos apaixona – que no meu caso é andar de mota. Ir ao autódromo do Estoril e ao de Portimão foi uma oportunidade fantástica – O campeonato nacional foi a primeira prova de desportos motorizados a ser realizada na Europa. O Circuito do Estoril no primeiro fim de semana de Junho, recebeu a primeira etapa do campeonato português de Velocidade, e aproveitei essa oportunidade para poder rolar, depois fui a Portimão este fim de semana e é sempre bom fazer um treino, andar a 300 à hora na reta, para poder ambientar o cérebro. A mota não é igual, obviamente, mas é sempre melhor que o sofá ou de que os jogos.”

Relativamente à data da primeira prova, Miguel Oliveira referiu que: “Nós temos alguma certeza que o campeonato vai começar agora em Julho, nos dias 19 e 26, por isso temos essa data mais ou menos definida como objetivo. Para mim, psicologicamente, é ótimo depois de tantos meses sem saber o que é que ia acontecer e se ia acontecer ou não. Ficar com a certeza e não apenas com a esperança. A organização tem feito um excelente trabalho, e temos uma carga enorme de medidas que temos de cumprir para segurança dos pilotos e de quem está a operar dentro das boxes”.

Querer acabar no top 10 é uma das ambições do piloto português que confessa: “Para mim o objetivo no início desta pré-temporada passou sempre por começar a estar mais frequentemente dentro do top 10, o que é um objetivo concretizável – na minha opinião – por dois motivos: por me achar um melhor piloto que no ano passado, com mais experiência e a 100% fisicamente, e a razão número dois é de facto porque a nossa mota tem evoluído bastante a nível técnico. Temos tido uma evolução tremenda em todos os campos técnicos da mota, desde o motor ao chassis e eletrónica. Portanto, eu acho que os ingredientes para terminar no top 10 estão reunidos. Estou confiante que este ano a nossa mota nos vai permitir lutar por posições muito melhores”.

Sobre o sonho do título mundial, Miguel Oliveira referiu que “Sonhar pode-se sonhar sempre, mas eu gosto de primeiro colocar os objetivos nas coisas e obviamente as coisas fazem-se passo a passo. Eu tenho de começar a frequentar o pódio e ter vitórias com uma frequência maior, e aí sim, tudo somado dá um título. Estar entre aqueles três ou quatro pilotos que lutam todos os anos pelo título não é fácil. Não é fácil de lá chegar, é preciso muita coisa e é muita experiência que se ganha em corrida – boa experiência de vitórias, de lutar por pódios. E essa experiência ainda não a tenho. É um sonho quase a tornar-se objetivo – é para ser cumprido daqui a três ou quatro anos”.

Não basta ir para a grelha e querer vencer. O piloto da Red Bull KTM Tech3 realçou que “Há vários casos de pilotos que chegaram à F1 – estou a recordar-me do Hamilton, ou o Márquez que ganhou no ano de estreia. Mas são pilotos que, apesar da sua imaturidade ou da sua juventude a chegar às categorias deram-se muito bem. Mas também estavam em estruturas e em máquinas diferentes”.

Miguel Oliveira referiu ainda que nem sempre é fácil delinear publicamente objetivos, já que os resultados não dependem apenas do piloto: “A nossa história é essa. No desporto motorizado às vezes fica difícil de transparecer para o público a dificuldade que nós temos às vezes em não dizermos as coisas ou não pormos as coisas de forma clara cá para fora ao nível de objetivos. Porque temos uma máquina debaixo de nós, que não é só acelerando mais que andamos mais rápido. É preciso muita coisa a acontecer por trás também”.

Comparando os riscos entre conduzir em pista um automóvel ou uma mota, nomeadamente em caso de falha de travagem, o piloto português referiu que: “Andar no asfalto é uma arte de precisão e de consistência de todas as voltas e isso requer uma margem de erro muito pequena. A felicidade é que agora nestas pistas largas há sempre muita escapatória em asfalto para nós irmos lá dar uma volta e podermos voltar com calma, é assim nas motas e nos carros, porque as pistas são praticamente as mesmas”.

O estilo de condução tem vindo a evoluir, a par da evolução dos equipamentos e da velocidade das motas. Miguel Oliveira explicou que: “Neste momento para tirar aquela décima a mota tem de virar mais na curva. De há 10 anos para cá tem-se adotado um estilo de condução muito mais carregado na frente da mota inclinando o corpo muito mais para o interior da curva, em grande parte porque existe uma grande diferença na condução de uma mota a 2 tempos e de uma mota 4 tempos, sobretudo nas classes intermédias e baixas, ou seja 600 e 250, Moto3 e Moto2. A nossa inclinação chega aos 62- 63 graus”.

Relativamente à importância da telemetria, em termos técnicos da mota, mas também de condução, o jovem piloto referiu que “A telemetria nas motos é tão desenvolvida como nos carros. Simplesmente existem coisas que nós não podemos ter – comunicação rádio, telemetria em tempo real, essas informações não se podem passar em tempo real para a box. É ditado pelo regulamento. A nós ajuda-nos a nível da precisão, porque temos mais tendência em perceber aquilo que está a acontecer vendo na telemetria, através de um gráfico – a precisão da nossa condução aumenta muito bem. Quando chegamos ao nível tão alto, como estamos, ajuda muito ter a telemetria como uma ajuda secundária para poder poupar um pouco mais o pneu. Garantir que através dos cálculos que temos na telemetria nós possamos chegar ao final da corrida ainda com alguma coisa para dar”.

Ainda sobre a telemetria, Miguel Oliveira referiu: “Através da telemetria conseguimos construir três variantes de mapas de motor. Temos três mapas para aceleração, três mapas diferentes para o travão motor e três mapas para o controlo de tração. E nós vamos ajustando estes parâmetros à medida que o nível de aderência baixa, o peso baixa. Para dar um exemplo: quando tenho pneus novos começo com muita mais potência porque a moto está muito mais pesada e tenho o controlo de tração no máximo por o pneu estar novo. À medida que a aderência baixa vamos libertando o controlo de tração, passando-o cada vez mais para o acelerador, e vamos reduzindo um pouco mais a potência porque a moto está leve, a aderência baixou e não queremos aquela potência toda ligada à roda”.

Sobre o apoio da MEO, marca da qual é embaixador, o piloto português referiu que “Quando a MEO se juntou a mim no ano passado, foi muito prestigiante, porque ter uma marca tão grande, com tanta potência em Portugal, a apoiar-me, só me dá notoriedade. Mas depois, curiosamente, deixou rapidamente de ser aquele típico patrocinador que por vezes se junta a nós durante alguns anos e depois sai, a duração com a MEO irá ser muito diferente porque os valores encaixam-se perfeitamente com os meus. A MEO tem feito uma campanha e uma política de proximidade com os consumidores que se encaixa muito bem com aquilo que eu faço no desporto. O desporto não é nada mais que entreter as pessoas e passar valores, e chegarmos mais perto de todos os portugueses. A parceria com a MEO dita muito da dinâmica e dos valores que partilhamos. Todo o grupo de embaixadores é fantástico e é uma grande honra poder pertencer a esse grupo”.

Com a subida ao Mundial de MotoGP, Miguel Oliveira teve de trocar o seu número de piloto: “O número 44 surgiu muito cedo na carreira. Acho que talvez nas motas seja mais identificativo, mais importante para o piloto, do que nos carros. Se calhar estou errado, mas acho que é o número que identifica bem o piloto nas motos. Surgiu o número 88 por forças maiores, porque quando me estreei no MotoGP já lá havia o Pol Espargaró com esse número. Ainda tentei arranjar um grupo amigo que o pudesse intimidar e obrigá-lo a ceder o número, mas não foi possível – ia parecer um pouco suspeito. Mas a opção estava em cima da mesa, ainda falei com ele, mas não havia nada a fazer”.

Neste momento, Oliveira só se vê a trocar o número 88 por um outro: “Surgiu o número 88 de forma natural, também é um número natural, é o dobro de 44 e acho que ficava muito bem. Só trocaria o 88 pelo número 1 na carenagem”.

Sobre a sensação de estar entre os melhores, o piloto português de MotoGP concluiu que: “Não quero que isto soe estranho ou que tenha algum pretensiosismo, mas julgo que à medida que nos aproximamos mais dos nossos ídolos ou de quem admiramos deixamos de ter aquele fator que nos deixa, ‘uau, está ali o Rossi, está ali o Márquez, está ali o Pedrosa’. Porque à medida que vamos chegando ao patamar deles começamos mais a olhar para eles com a mesma altura de cabeça e não tanto lá para cima onde julgamos que eles estariam em relação a nós. Mas tenho uma grande admiração por eles, obviamente”.

No final da entrevista ficou a opinião do piloto de MotoGP, que referiu que “Portimão merecia ter cá o MotoGP o mais breve possível”, tendo ainda revelado que fora das motos gostaria de participar “numa prova de rallye”.

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