“Desejo lutar pelo título na Fórmula E e vencer Le Mans”

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Dois irmãos unidos pela paixão das corridas. O mais novo é um dos nomes mais sonantes da Fórmula E, piloto BMW e candidato ao título na 5ª temporada da disciplina que começa este fim-de-semana em Riade, na Arábia Saudita. O mais velho já competiu em grandes campeonatos, como WTCC. Atualmente faz “coaching” de pilotos, ensinando a arte das corridas. Ao mesmo tempo, partilha a cabine dos comentários no Eurosport, o canal que mais uma vez irá transmitir o verdadeiro “Mundial” de carros elétricos. António Félix da Costa entrevistado por Duarte Félix da Costa. Um momento eletrizante ou não fosse o tema a Fórmula E, a nova coqueluche do Desporto Motorizado.

Duarte: Esta quinta temporada da Fórmula E é completamente diferente das quatro anteriores (não há mudança de carro a meio da corrida), será justo dizer que é como começar do zero para um piloto?

António: Não! Os pilotos que lá estão desde o início, como eu, têm alguma vantagem em ter experiência de Fórmula E. Vamos ter vários “rookies” este ano como o [Felipe] Massa, o [Gary] Paffett, o Alexander Sims, o meu colega de equipa, mas a Fórmula E este ano torna-se um campeonato muito mais normal. Já não temos de trocar de carro a meio da corrida. O motor já faz toda a distância. Temos mais potência. O sistema de “brake-by-wire”, que é um sistema muito mais tecnológico de travagem que nos ajuda bastante. Com o carro antigo era muito mais difícil ter o controlo absoluto dos travões…

Duarte: Muito resumidamente esse sistema é…?

António: É um sistema eletrónico que nos ajuda a definir a repartição de travagem e isso torna a nossa vida enquanto pilotos muito mais fácil, mas não deixa de ser um campeonato onde corremos só em circuitos citadinos e isso torna as coisas complicadas.

Duarte: O “Attack Mode” que traz um efeito “game”, de jogo, à Fórmula E. Gostas deste conceito e achas que se pode comparar ao “Fanboost”, que se mantém também?

António: Mais ou menos. O “Fanboost” é uma arma onde os fãs que votam e os três pilotos que ganham o “Fanboost” têm mais potência, mas não têm mais desgaste de bateria. É potência e tempo ‘de borla’. O “Attack Mode” não. Temos de ir por fora da linha ideal e passar por cima de cinco “picket points” (ativadores), para ativar esses 25 quilowatts extra de potência. Interessante é que, até uma hora antes da corrida, não sabemos se temos esse extra duas vezes durante quatro minutos ou uma vez durante oito minutos. Vai trazer uma nova maneira de se fazer estratégia de corrida, de atacar ou defender.

Duarte: Consideras este “Attack Mode” uma espécie de Super Mario Kart? Jogavas esse jogo, eu bem me lembro…

António: Jogava! Ainda jogámos umas vezes em mais novo, mas já ‘te dava na cabeça’ (risos). Não é bem esse o nome que queremos usar. É mais um género de “Joker Lap” onde conseguimos ativar mais potência durante mais algum tempo. Vamos ver grandes diferenças. Pilotos a ativar no início e outros no final. Principalmente agora, que é uma coisa nova, se for usado de forma inteligente pode fazer a diferença.

Duarte: Pelo que se viu nos testes de inverno, em Valência, a BMW fez um grande trabalho. Ainda é prematuro dizer, mas achas que são candidatos ao título?

António: É uma pergunta que tem surgido algumas vezes, depois dos testes em Valência. Mas venho de duas épocas tão complicadas que custa a acreditar que essa seja a realidade. Acho que é uma possibilidade, sem dúvida. Foi para isso que trabalhámos nos últimos anos. Os dois anos que eu estive na Andretti foi para preparar esta quinta temporada. Para a entrada oficial da BMW. Por isso, espero que essa seja realidade a nossa posição de candidatos. Foi para isso que trabalhámos. Tenho a certeza que as outras equipas não vão estar mal. Têm pilotos muito bons, equipas técnicas muito boas e orçamentos muito altos. Se estivermos ao nível, se tivermos um carro parecido, já seria muito bom para mim. Depois compete-nos a nós pilotos fazer a diferença.

Duarte: Estas novas regras obrigam a uma maior ligação entre piloto, engenheiro e estratega, até porque só se saberá a duração e as vezes do “Attack Mode” uma hora antes da prova. Essa essa ligação será mais forte que no passado?

António: Sem dúvida! Não só o trabalho no dia da corrida, mas o trabalho todo quando não temos corridas. Durante a semana falo várias vezes com o meu engenheiro. Estamos a criar uma boa relação. Aliás, é um engenheiro que conheço bem. Com ele venci o Grande Prémio de Macau na Fórmula 3. Temos uma equipa boa, tudo malta nova e com fome de vir buscar bons resultados.

Duarte: Com as novas baterias as corridas, os 45 minutos mais uma volta de prova, mais gasto por volta e maior regeneração também, os pilotos têm de ser ainda mais inteligentes na gestão da própria energia. Isso significa menos concentração na arte de pilotagem ou consegue-se manter o foco na pilotagem? É complicado gerir a parte de ser rápido e ao mesmo tempo gerir energia?

António: A melhor maneira de gerir energia é sendo rápido. Quanto mais alta for a velocidade mínima numa curva, mais energia vamos poupar nessa curva. A maneira mais eficiente é ser o mais rápido possível. Isso engloba o carro estar bom, guiarmos bem nessa curva ou todas as curvas e termos uma boa gestão da energia, tornando o carro eficiente. São quatro aspetos que têm que estar todos muito bem alinhados, funcionarem todos. Quem conseguir fazer isto da melhor forma, vai ser o piloto mais rápido/eficiente.

Duarte: A primeira corrida da temporada da Fórmula E acontece em dezembro, um mês especial de Natal. O que consideravas um bom presente de Natal a começar este mundial?

António: Para começar bem o ano, só quero um fim de semana sem erros. Se tivermos um fim de semana sem erros, se eu fizer bem o meu papel e a equipa fizer bem o seu papel, então o presente vai aparecer: um top-5. Isso seria um bom início de campeonato. Acho que é uma boa maneira de lançar uma época. Obviamente, nestas corridas iniciais, sempre que há uma transição grande com regras, carros, etc., é mais fácil fazer a diferença. Vimos isso o ano passado em Hong Kong. Podia ter ganho facilmente a segunda corrida se não tivesse perdido os 9 segundos na “boxe”. E isto com um carro que era dos menos competitivos. Fica bem demonstrado que no início de temporada, as pessoas ainda estão à procura de onde se põem os pés. O que quero mesmo é ter um fim de semana sem erros e aí podemos fazer a diferença. Depois, durante a época, caso se confirme o nosso nível de performance, temos de lutar pelos lugares da frente.

Duarte: Riade é uma cidade onde nós portugueses já fomos campeões do mundo de futebol, em 1989, com a “Geração de Ouro”, parece-te um bom presságio começarmos aí?

António: É uma cidade estranha para nós. No meu mundo das corridas é um país muito estranho. Nunca se fizeram corridas de automóveis na Arábia Saudita. Mas também nunca se tinha feito em Abu Dhabi e agora é uma das corridas mais giras de se ver na Fórmula 1. Vou com uma mente aberta. Já fiz o circuito no simulador. Tem partes engraçadas, outras mais estreitas, mas acho que pode ser uma boa corrida. Vai claramente ser um bom palco para abrir a Fórmula E, enquanto circuito, E vai ser um evento grande, pois os árabes estão a apostar muito na inovação dos carros elétricos, por mais estranho que pareça, sendo de lá que vem o petróleo. Mas o mundo está a mudar e esta prova é uma grande demonstração disso mesmo. Vamos ver se nos corre bem.

Duarte: E vais lá ter o Jorge Jesus a apoiar-te?

António: Está mais do que convidado, sem dúvida. Temos um amigo em comum que está a organizar. Acho que o Jorge tem jogo nesse dia, mas pode ser que vá ver o “shakedown”.

Duarte: E com cada vez mais atenção dos media porque saíram agora os números de televisão e apenas a Fórmula 1 ficou à frente. A Fórmula E já ultrapassou o Moto GP. Isso demonstra bem o interesse do público.

António: Se me dissessem há cinco anos que a Porsche, Mercedes, Audi, BMW, Jaguar, Renault/Nissan ou Citroen iriam estar a competir num campeonato 100 por cento elétrico, não acreditava. Mas não estão lá só porque é giro. Vendem-se carros. Estes números fazem todo o sentido. Chama cada vez mais marcas, e é do interesse de pilotos, patrocinadores e parceiros estarem juntos.

Duarte: O melhor momento de 2018 e o maior desejo para 2019?

António: O melhor momento de 2018 talvez o “stint” (turno de condução) em Le Mans, aquele duplo “stint” ao final da tarde de sábado, onde levámos o M8 até ao terceiro lugar. Passei cinco ou seis carros. Ultrapassagens boas, a andar para a frente. Foi uma altura do ano em que tive um carro competitivo e consegui demonstrar. Levou-me até aos anos passados, em 2012/2013, onde tinha um carro bom e conseguia lutar na frente. Foi ótimo voltar a sentir-me competitivo. Um bom momento, a par das duas “super poles” na Fórmula E.

O maior desejo para 2019 é lutar pelo campeonato na Fórmula E. E um desejo igualmente grande é ganhar as 24 horas de Le Mans. Acho que enquanto piloto, enquanto BMW, estamos a preparar isso a 100 por cento. É um objetivo muito real. A nível de velocidade e de performance estamos lá. Temos é de ter a certeza que o carro aguenta 24 e não apenas 6 horas, mas estamos a trabalhar para isso e é um objetivo bem real.

Duarte: Qual o momento mais marcante da época 2017-2018 que terminou neste verão?

António: Tivemos alguns momentos marcantes, tanto bons como maus. Vou começar pelo mau: em Roma, quando bati na saída da boxe no ‘Pechito’ [Jose Maria López] antes de começar a minha volta de qualificação. Foi a única vez no ano que estive no Grupo 4 [aquele que apanha a pista mais limpa]. Estive durante uma hora a mentalizar-me na minha volta. Era uma boa chance para fazer uma bela performance na qualificação. O meu mecânico disse-me para sair da boxe e quando sai vinha lá o ‘Pechito’…

Duarte: Não correu bem…

António: Nem cheguei a qualificar-me. Arranquei de último e levei uma penalização. A culpa foi minha, mas acho que ainda fiz um ponto. Não tenho a certeza [não fez, acabou em 11.º]. Momentos bons tive duas presenças na “Super Pole”, uma no México e outra em Paris. Mesmo o nosso pacote de carro e performance não sendo o ideal, foram dois momentos bons. Para além disso, tive três colegas de equipa e bati os três. Foram mandados embora ao longo do ano e eu felizmente consegui manter-me. Em defesa deles próprios, a culpa não era dos pilotos. Foi uma época complicada mentalmente. Espero agora ter armas para lutar mais à frente.

Duarte: Qual a principal aprendizagem destes dois últimos anos, mas em principal do último? Foi mais um ano de sofrimento, mas também de aprendizagem, não foi?

António: Aprende-se muito a andar lá atrás, nas “molhadas”, largar em 15.º, 19.º, 10.º. As corridas mais fáceis são quando largamos da “pole” ou dos três primeiros lugares. Vamos embora, mas não se aprende muito aí. Aprende-se uma gestão de corrida e tem alguma arte. Mas arrancar em 19.º e vir várias vezes lá de trás para pontuar, é complicado. Acho que este ano, num dia em que uma qualificação não corra bem e estejamos nessa situação, serei um piloto muito melhor preparado para conseguir com um bom carro arrancar lá de trás, transformar uma corrida e minimizar os danos.

Duarte: Porque no fundo é gerir a energia, mas atacar ao mesmo tempo…

António: Aí é que está a grande arte. Inicialmente, quando na Fórmula E havia maiores diferenças de competitividade dos carros, de pilotos, de tudo, era mais fácil fazer isso. Agora, como estamos todos tão cientes do que é preciso fazer na Fórmula E (e toda a gente é mais eficiente, mais inteligente) vamos começar a ver menos essas diferenças de alguém a arrancar em último e acabar nos cinco primeiros.

Duarte: Qual foi o circuito ou a corrida que te deu mais gozo?

António: Tenho dois: Punta del Este, no Uruguai. Não tanto pela magia da cidade, mas pelo local da prova. A corrida é toda feita por detrás da praia. É impressionante o que a Fórmula E conseguiu fazer nos últimos anos. Montar pistas em sítios onde nunca esperei correr. Ali estamos, literalmente, a 50m da praia. Uma vez, entre a qualificação e a corrida, fomos dar um mergulho à praia. Los Angeles é uma cidade que gosto muito. Gosto muito da América. Foi giro porque [antes de Long Beach] tivemos uns dias antes muito engraçados em Miami e Las Vegas. Quando chegámos a L.A. fiz a “pole position”, o que foi porreiro.

Duarte: E Macau não entra aqui na seleção de circuitos?

António: Sem ser da Fórmula E, claramente Macau é o circuito que enquanto piloto me dá mais prazer. A combinação de um Fórmula em Macau é uma luva que encaixa na perfeição. Agora corre-se lá com os GT. É uma corrida que quero fazer, mas com certeza que não será tão divertido como a Fórmula 3.

Duarte: E correr em Portugal? Principalmente quem acompanha a Fórmula E. Quando poderemos ver isso?

António: Já estivemos mais longe. Já tivemos o C.E.O. da Fórmula E em Portugal, em reuniões com a Câmara de Lisboa. Há investidores com interesse, temos a cidade com interesse em que se faça, mas sabemos que um evento deste calibre nunca é fácil montar. Estamos numa fase em que as cidades têm mesmo de mostrar que a mobilidade elétrica é o futuro, seja tuk-tuk, trotinetes, bicicletas, táxis, autocarros. Acho que a Fórmula E é uma boa arma para mostrar que os carros elétricos são “cool”. Já não é só o Toyota Prius que anda aí. Já temos todas as marcas como carros elétricos na estrada. Tendo um piloto português, tenho a certeza que o público nacional gostava de ver. Enquanto piloto português, adorava. É raro correr em casa. Foi uma das coisas que fiz no meu primeiro ano internacional, na Eurocup da F. Renault 2.0. Competi no Estoril e foi uma sensação incrível. Vamos ver. Acho que não é impossível…

Duarte: Corres na Fórmula E, mas também no Mundial de Resistência (WEC), também com a BMW? Preferências…

António: Se a BMW me dissesse agora – tens de escolher uma só – era complicado. Tenho muito prazer a fazer os dois. O prazer é diferente. No WEC sempre que ligo o BMW M8 GTE PRO é uma sensação ótima. Um carro que tem muita tecnológica. O WEC é um campeonato extraordinário, com muitos carros. Uma maneira de se fazer corridas nova para mim. Estou a gostar muito desta minha fase de “endurance”. Na Fórmula E, quando há cinco anos assinei o meu primeiro contrato e fiz o primeiro teste, liguei ao Tiago [Monteiro] e disse: “Tira-me daqui. Não quero estar aqui”. Depois, acabei por ficar. Com a força da BMW já nessa altura e dou graças a Deus por ter ficado. De ter sido convencido a ficar. É um campeonato cuja evolução e crescimento nunca se viu antes. A quantidade de gente a assistir às corridas, as marcas e os pilotos envolvido. E o carro tem a sua ciência de guiar. Junte-se o facto de achar que maneira de fazer corridas na Fórmula E é espetacular. Só em circuitos citadinos com pilotos muitos bons. Enquanto piloto dá-me muito prazer.

Duarte: Quantos voos de avião fizeste em 2018? E o próximo será o último de 2018?

António: Tenho agora a última viagem, mas primeiro ainda vou a Munique, fazer o simulador para a corrida. Depois de Munique vou para a Arábia Saudita e daí regresso a Portugal. Vão ser mais cinco voos. Vou chegar aos 130 e muitos voos este ano. Não sei ao certo, mas mais de 130, sem dúvida. Tenho uma aplicação que me faz as contas das horas de voo. Já fiz três voltas e meia ao mundo e cerca de duas semanas e meia dentro de aviões. Mas o que me afeta mais é quando os voos atrasam uma ou duas horas. São horas muito pouco úteis perdidas à espera…

Duarte: Agora uma pergunta mais pessoal. Entre nós, qual dos dois conduz pior em estrada? Eu não tenho direito à resposta…

António: Eu nunca fiquei sem carta! Vamos deixar as coisas aí! (risos)

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